Triste e cinzento

Há umas semanas atrás, no Bar da Barraca quando da estreia da peça “A Herança Maldita”, dizia-nos o Helder Costa a propósito do texto do Augusto Boal algo parecido com isto (cito de memória) – nós mal damos por eles mas têm vindo a ganhar força por essa Europa fora e neste momento já ocupam posições chave nas estruturas políticas e económicas dos países e Portugal não é excepção à regra.

Vem isto a propósito do que se passou ontem com a votação para o concurso “Os Grandes Portugueses”, organizado pela RTP e de que saiu vencedor Salazar. Embora seja necessário relativizar a representatividade daquela votação e mesmo alinhando com as teses do “voto de protesto” e da mobilização dos “mais empenhados” (fascistas e comunistas?)  o certo é que os resultados – 41% dos votos para Salazar a 20% de distância do segundo classificado – mostram um estado de espírito mais que propício ao aparecimento de candidatos a “salvadores da pátria”.

É triste que passados 33 anos do 25 de Abril isto aconteça. Só um país que está cinzento, triste, desiludido e principalmente muito esquecido vota naquela assombração para maior português de sempre. Concordo com o Fernando Dacosta no que disse; de facto prometeu-se aos portugueses um país melhor, mais próspero, com maior bem estar para todos e o que se vê é o regresso ao capitalismo mais selvagem com o cortejo de miséria que traz consigo. A culpa tem estado na nossa classe política, sem dúvida, mas não estará principalmente em todos nós que continuamos eternamente à espera de D. Sebastião em vez de tomarmos o nosso destino nas mãos?


Nota: abri os comentários para este post porque admito a discordância.

~ by Dionisio Leitão on March 26, 2007.

5 Responses to “Triste e cinzento”

  1. Começo pelo princípio. A ideia do programa é perfeitamente idiota, e a mim pouco me importa que já tenha sido feita noutros países da Europa. É um pouco como aquela história de quem é o melhor jogador do mundo, ou qual a melhor banda de sempre, lembra-me sempre que eu tive muitas dessas discussões…na adolescência!!! E que por alguma razão continuei a crescer…
    Confesso que nunca vi o programa, porque assim que me disseram do que se tratava logo percebi que não me apetecia perder o meu precioso tempo a discutir se o Afonso Henriques era mais valente que o Fernando Pessoa, ou se o Eusébio era mais maior grande que o Egas Moniz…
    Se queriam homenagear pessoas que pelo seu contributo pessoal contribuíram para a grandeza da história do nosso país (será que era essa a ideia dos “Grandes Portugueses”?!) tinham muitas formas de o fazer. Mas nenhuma das que me ocorre traria audiências. E no fundo é disso que se trata, não é? Se não houvesse um concurso (Para quando o “Grandes Pilas Portuguesas” ou o “Maior Par de Mamas Portuguesas”?!) não haveria polémica, e sem discórdia não há audiências, que programas de história não faltam na RTP2 ou no canal história.
    E é por isso que não me apetece falar muito disto. Porque, para mim, mais importante que saber se é bom ou mau que queiram resuscitar Salazar, ou que os seus adeptos tenham cometido a heresia de eleger Salazar numa votação livre, é perceber que pouca coisa que seja interessante vinga se não tiver sexo, polémica, prémios ou outra coisa qualquer que a torne apetecível às massas.
    Não me admira que muita gente tenha saudades de Salazar. Pelo menos nesse tempo não havia chatos a dizer que as pessoas têm que pensar pela sua cabeça. E que devem ter critérios de qualidade. E que não se podem acomodar só porque é mais fácil…
    É assunto que dá pano para mangas, mas fecho com mais este exemplo. Há duas semanas que quase todos os dias ouço um comentário sobre o novo programa da TVI que junta rapazitos pseudo-inteligentes (como foi muito bem dito pelos Gatos Fedorentos, se o fossem não estavam naquela casa!) e miudas giras, enjaulados na mesma casa. A grande maioria dos comentários que ouvi foram depreciativos, no entanto parece que fui a única pessoa que, ao saber antecipadamente do que se tratava, decidi não ver o programa.
    Desviei-me do assunto? Acho que não, quando as pessoas perceberem que têm o poder de ver o que querem e de exigir o mínimo de qualidade, talvez deixemos de sentir necessidade de andar a comparar portugueses, e nos decidamos a preparar novos grandes portugueses!

  2. Rogério, não quis alongar a escrita e por isso também não pus ali que a única vez que vi o programa foi precisamente na final. Mas, confesso que nesse último tinha interesse em ver as argumentações (não o resultado porque esse era sabido com antecedência) dos “defensores” e restante assistência. Assim como não escrevi que também achei o concurso uma idiotice completa desde que começou. Comparar coisas que não são comparáveis. Quanto ao resto concordo contigo com uma excepção – não foi uma votação no sentido que lhe damos normalmente e por isso mesmo disse que os resultados têm que ser relativizados.

  3. Eu estou como voçês. Também não vi qualquer um dos dois programas. Primeiro porque me ‘cheirou’ a idiotice clara. Segundo, porque já há algum tempo que os canais nacionais de televisão não me merecem atenção ou gasto de tempo (salvo raras excepções, na RTP 2, ou quando transmitem futebol)
    Quanto ao facto de a AVENTESMA ter ganho a votação, não me surpreende. A maioria votante, decerto, é a mesma maioria que assiste a Belas e Mestres.É este o Portugal que temos, e sinceramente, já nem sei se vale a pena dizer que isto só mudava com uma revolução…

  4. Concordo com as opiniões anteriores. Acho ainda que se está a dar uma importância exagerada ao passatempo “Grandes Portugueses”, ao que julgo saber houve cerca de 200 mil votos na votação do programa (o que faz do programa um fracasso e dá para entender o interesse que provocou junto dos portugueses), o que representa cerca de 2% dos portugueses, ou mesmo, cerca de 4% a 5% dos eleitores portugueses, nestes termos qualquer grupo mais motivado poderia manipular os resultados. Desculpem a piadinha, mas até o MRPP do Garcia Pereira quase lhe ganharia.

    É verdade que existe saudosismo por parte de alguns, como também existe noutros países, Espanha, Itália, Alemanha, Rússia, etc. E existe descontentamento por parte de muitos, porque o país prometido/sonhado está longe daquele que é o presente. Mas muito poucos, em consciência, gostariam de voltar ao ‘Estado novo’, apesar de ouvir esse género de opiniões mais vezes do que gostaria.

    Temos que ter esperança, energia para fazer melhor e passarmos ao lado daquilo que é acessório, dar-mos importância ao que relamente é importante, nós, ao que nos rodeia, à arte e à ética.

    Bem hajam!

  5. Oh Dionísio, desculpa lá “avacalhar” a caixa de comentários, mas queria só deixar duas breves notas. A junção do poema “Lembra-me um sonho lindo” com a bela foto da tua não menos bela e doce Fernanda, é de um bom gosto comovente.
    E nome do blog deste último amigo que deixou o seu comentário, é de uma criatividade que merece aplausos! Textículos é lindo!!!!

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