Sem título

Quero arrancar a alma de mim, matar a doença cá fora, destruí-la num só gesto e chorá-la tanto até à morte.
Não quero saber da ortografia, nem da pontuação, nem comandar previamente os dedos até que dêem razão ao que escrevo.
Quero, quero dar o meu corpo em troca do que sinto na revolta de existir. Porquê eu? Porquê este desaguar do mal de todos os males, os cancros de todos os cancros, as mortes de todas as mortes que me invadem os sentidos desesperados por viver, é isso que pretendem de mim?
Falem agora, vá, chamem-me lá de sidoso, que tenho SIDA! Agora que já todos temos essa porra!
Porquê tamanha bondade? Tanto cor de rosa, azul celeste?
Celeste o tanas, negro, branco sujo dos hospitais, o aconchego final das morgues na maca derradeira, desprezada, esquecida, de profundis mortum it est, amen.
Que se fodam os padres abutres paliativos do raio que vos partam.
Queimem os Evangelhos, Velhos, Novos Testamentos e enfim, deixem-me morrer em paz.
A bigorna, nem o martelo repousa no selar final, tac tac tac, agudo soa nos jardins das cruzes e jazigos embelezados para quem nos irá, então, chorar cada um na sua eternidade.
A morte tem espaço para todos, garanto-vos!
(…)
Poupai as vossas lágrimas fáceis para os vossos próximos familiares distantes que não tardarão a padecer igualmente nesta marcha universal, na descida para a morte rumo ao desconhecido vazio onde já vivemos dia após dia…
Já não me pergunto porque choro, mas tenho pena de o saber agora que a luz da desilusão chegou finalmente até mim apregoando bem alto, VITÓRIA!
Que venha a febre, as náuseas, as insónias que me impedem o sono, o vírus que acorde e me coma por dentro e por fora e que se exponha aos outros para vos roçar, no seu bafo, o quão na realidade somos…nada.
(…)
Quando eu morrer, o mundo morre comigo, nesta “máxima” fascista.
(…)
Só espero é que depois de morto não me venham com perguntas sobre o além, porque tenho uma eternidade para descansar e com sorte poderei escrever, no caso de me pouparem as mãos, umas coisas interessantes sobre os mediáticos mortos.
(…)
Fui concebido antes do meu pai embarcar para a guerra (Angola), disseram-me. Ele regressou, vivo, mas certamente outro José Esteves, o meu ídolo de infância.
Apesar de ser um filho da puta, deu-me o abraço mais sublime que alguma vez recebi, quando soube da minha infecção do VIH.

Excertos de um texto de Pedro Esteves

~ by Dionisio Leitão on December 29, 2007.

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